POEMA MUDO

 

 

 

Me recuso a

Não quero te

Nunca

Jamais uma coisa

Neguei, nego e negarei

Nada disso me

Nem ela nem

 

Estou sem rima

sem metro

sem poesia

   

MEDO DA RUA

 

 

 

Minha casa tem

Janela porta sacadas,

todas fechadas

- sem saída, sem entrada.

Minha casa trancada não respira,

não inspira,

não expira:

vida truncada.

 

Tenho medo da rua.

 

Vou botar os olhos nela

E tomar outro susto.

Vou ver se agüento

Outra manhã de primavera.

  

PIROMPO Nº1

 

 

Esta tarde,

Tem que ser com você,

Tem que ser pra valer;

Com amor de namoro no morro onde eu moro

 

Esta tarde,

Tem que ser com prazer,

Tem que ter matinê,

Com aroma pairando lembrando romã,

 

Cê pode esquecer tudo mais tarde,

Mas esta tarde é só minha.

Enquanto estiveres sozinha,

Serei teu. Tua eterna metade.

 

Agente pode passar a vida inteira juntos esta tarde

           

 

ONDE TUDO COMEÇA

 

 

 

Teu beijo é final feliz

Onde tudo começa

Eu vim dele

E corro pr'ele

Eu morro por ele

Renasço com nele

 

É só um jeito perfeito

- Verbo mais-que-perfeito -

Ter um peito satisfeito

Com um beijo teu

Com efeito:

Colateral

Com final

- feliz

  

     CHATO

 

 

 

É chato ficar em casa

Só em casa

É chato contar um conto

Por um conto

É chato crescer um pouco

Não ser pouco

É chato estudar um livro

Pra ser livre

É chato fazer de tudo

Sem ter tudo

É chato morrer às vezes

Tantas vezes

É chato gostar de chuva

Quando há chuva

É chato gostar de ti

Só por ti

 

Os bem-venturados são sempre felizes;

Vivendo e morrendo no reino dos seus.

 

   PIROMPO Nº 2

 

 

 

Longe de você eu já não existo

Tudo é devaneio

É mundo ao meio

Sou medo e receio

O luar já não é luar

Pois sem teu olhar

O luar não há de brilhar

E sem brilho não há luar

Sem bola não há bilhar

Sem você não já posso amar

 

Perto de você nada mais existe

O mundo é momento

Pra tudo há um jeito

Universo perfeito

Teu olhar é meu olhar

E o luar volta a brilhar

Nosso sangue a borbulhar

Só precisa circular

Com amor o mundo é lar

Com você o amor é mar.

 

Nada mais existe

E o amor é isto

Tudo mais resiste

E eu não desisto

 

A SAUDADE É MAR

 

 

 

Amarrado à rama no mar.

Amando a mando do mar.

 

Eu preciso navegar

Impreciso.

Navegar...

 

Minha terra, além desta,

Me encerra. Me detesta

Quem já me enterra nesta.

 

Quem me deseja nesta

Não sabe o que é o mar,

Não sabe navegar;

Ao mar, já não se presta.

 

A saudade é mar.

Tem que saber nadar,

Tem que atravessa-lo pra poder amar.

  

   

 Uma andada 

Uma mijada

Uma pagada de conta

E minha fita fica pronta

Como a vida que desponta

 

          

 

DE ONDE VEM O POEMA

 

 

 

Um dia,

Um belo dia,

Escutei o cheiro do açúcar.

Chamei quem por ali passava:

Falava, mostrava, tentava...

Só que ninguém mais escutava.

 

E o tempo passou.

E o cheiro do açúcar...

Eu ainda escuto.

Porém,

Bem mais colorido.

 

E desta poesia nascem todos os meus poemas.

 

Cadê meu domingo

Cadê minhas férias

Cadê meu samba

Cadê meu amor

 

Virou crédito

  

 

BOM E VELHO BOURBON

 

 

 

Pensamento bom

Gosto tato e som

Um bom e velho Bourbon...

Meu bem é parte disso,

parte disso é meu também.

Quando meu bem parte,

não há mais bondade.

 

Não há pensamento

Nem discernimento

Apenas chão de cimento...

É que meu bem se foi.

Se for como já foi antes,

meu bem vai voltar

tudo em seu lugar:

Pensamento bom

Gosto tato e som

O mesmo bom e velho Bourbon...

 

VERSUS

 

 

 

Não quero dia sem sol

Nem o sal do mar

Não quero o som do sino

Nem suor e cerveja

sede

Não quero isso

Não tenho idade

Pra ter saudade

 

Prefiro um véu de noiva

Um verão ao luar

A vida bem vivida

Vulgar e variante

vinho

Prefiro o que vem

Vou variando

E com vontade

 

 

ser poeta é dizer não

desde o chão

ter poesia é dizer sim

até o fim

 

SEM

 

 

 

Sem vontade

De viver

Sem vontade

De verter

Sem coragem

Sem coração

Sem você

Sem viver

 

Com ninguém

 

O que mais te apraz?

Sexo ou poesia?

Pra mim tanto faz;

  Havendo harmonia.

 

 SAUDADELA

 

 

 

ELA ELA ELA

É LÁ É LÁ É LÁ

E LÁ E LÁ E LÁ

É ELA É ELA

LÁ ELA

 

E CÁ?

É QUEM?

U Q, SEM KKK?

 

 

POEMINHA FILOSÓFICO

 

 

 

O sábio geralmente não sabe muita coisa.

O sábio só sabe das coisas de sábio;

das coisas de gente ele não sabe, não.

 

Um dia toda a gente andava

em brigas e lamentos:

intrigas e lamúrias.

E pintou uma dúvida:

sereno ou não sereno?

 

E tinha um velho sendo

sábio e sereno.

Lhe questionei um dia,

ele disse que nada sabia

das coisas que a gente vivia.

E continuou sendo e sabendo,

sendo sereno,

só por ser um sábio que sabe

coisas de sábio.

Das coisas de gente

a gente é quem sabe.

 

O DIABO

 

 

 

Hoje eu 'tô c'o Diabo.

E o Diabo é do interior da Paraíba.

E o Diabo é Coroné.

E o Diabo é Dono de tudo.

E o Diabo manda em todo mundo.

 

Hoje não tem amor que me azeite.

Num tem flor que me aceite.

Num tem dor que me ajeite.

Num tem Deus que me agüente.

 

Tenta me tentá p'a tu vê;

Tu vai vê o que tu vai tê. 

 

STRITU SENSU

 

 

 

Essa coisa da palavra escrita

sempre me animou mais

Que a palavra dita:

sem ela,

fica o dito pelo não dito.

Assim está escrito:

"Tudo estritamente restrito

à palavra escrita,

que não pode ser dita.

 

E o verbo desfez a carne.

 

 

Santa dúvida!

Ligar ou não ligar?

 

Segurar a saudade

e matar a inspiração?

 

Sair da seguridade

e me acabar em paixão?

 

Ligar e não ligar,

eis a solução.

 

PIROMPO Nº 3

 

 

 

 

Você, que eu não esqueço,

Você, que anoitece enquanto amanheço.

Você tem que saber:

Penso sempre em você.

 

Cada suspiro meu

Depois de uma canção

De amor e melodia,

Há cada meio-dia

- batendo o coração -,

É pelo encanto seu.

 

Quando canto sozinho,

Batucando no peito

- refém da arritmia -

A canção que existia,

É pra encontrar um jeito;

Te encontrar no caminho.

 

No meio do caminho

Tive uma perda:

Perdi você

No meio do caminho.

 

Você, que eu não esqueço,

Você que anoitece enquanto amanheço,

Você tem que saber:

Penso sempre. E você?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que eu sinto é como a fome,

porém, insaciável:

tanto mais fome quanto mais se come.

 

É uma fome que não cede

e que pode virar sede

enquanto seda a vida que procede.

 

É fome.

É sede.

- e não se come -

Meu prato sêde.

Do teu colo bebo;

infinita fonte

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MIGALHA

 

 

 

Às vezes sofro como a migalha no chão

Às vezes sou migalha

 

O que sobra da batalha?

É mansidão?

O que sobra da navalha?

É precisão?

O que sobra da fornalha?

É solidão?

O que sofre na migalha?

É ter-se ao chão?

É não ser pão?

É não ser mais?

É não ter paz?

 

A migalha foi pão macio

Hoje não vai além do chão

Duro

 

Às vezes sou migalha

E sofro

 

sempre

 

 

 

SUMIDOURO

 

 

 

Eu, consumidor, consumo dor,

Consumo o sumo de mim,

E sumo de mim

- Com sumidor:

Resumo de mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MESMO

 

 

 

 

Onde foi, meu deus,

que eu me perdi?

Onde, meu deus,

eu perdi a si?

 

a si mesmo assim a mim mesmo assim

 

Onde me perdestes,

desencontrei-me:

Eu

Meu

Deus

Mesmo assim...

 

...esmo a si.

 

 

 

 

        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ENTENDIMENTO

 

 

 

Ah! Quem é que entende o amor?

Do que é que entende o amor?

 

Desentendimento só:

Durante a noite ela chove,

Durante o dia eu escorro.

Se ela pede, é sempre um "love",

Se eu imploro, é por socorro.

Já que e terra não se move,

Desse amor eu já não morro.

 

Desentendimento só:

Um olhar que não comove

- Nem sussurro nem esporro -,

 Não há sol que me reprove,

Provas na há, nem há jorro.

Renove a prova dos nove;

Antes do teto tem o forro.

 

Não me entenda mal!

Não me entenda, amor!

Quem entende o amor?

Quem distende o mar?

Entenda de amar!

(Desentendimento só)

 

esquisitices a parte...

 

 

 

 

baba

(generalizadas)             quices    bai bai general

           maca

                                                              geléia geral

 

 

                       ex - quisite

(descaretilice)                         isso        sem careta

                        eis que existe

                                                                e sem caretice

 

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